sábado, 7 de agosto de 2010

Na planície e sozinho


Na última quarta-feira, o cientista político Antônio Lavareda, histórico integrante da cúpula que orbitava em torno do ex-governador e candidato ao governo Jarbas Vasconcelos (PMDB), foi perguntado pela reportagem sobre a situação de isolamento na qual se encontra o senador. Respondeu com uma sonora risada. "Qual o motivo do sorriso?", indagamos. "Diga que eu apenas sorri", afirmou ele. Afora amigo pessoal, Lavareda era o homem forte de Jarbas para marketing e pesquisas de governo e eleitorais, com quem trabalhou desde as eleições para prefeito do Recife em 1985. Hoje os dois estão rompidos. "Eu faço questão de sequer ler os jornais locais para não ter notícias da eleição estadual", disse ele, acrescentando que está concentrado nas eleições nacionais.

A ausência de Lavareda e de outros colaboradores do staff do governo Jarbas é sentida e se insere num problema continuado. Jarbas passa por num momento delicado na planície. Teve dificuldades para montar a chapa de senador, está em baixa nas pesquisas (a última sondagem do Instituto Exatta publicada no dia 18 julho no Diario deu vantagem de 38 pontos para o candidato à reeleição Eduardo Campos, do PSB), vê a dissidência de lideranças do interior (a exemplo do ex-prefeito de Gravatá, Joaquim Neto, do PSDB) e tem corrido para manter a participação de candidatos no seu palanque. Está diante do desafio de manter-se à frente de uma frágil oposição - composta por um PMDB e um PFL enfraquecidos e um PSDB fragmentado - e, a depender da condução da campanha, "corre o risco de sair do processo eleitoral menor politicamente do que entrou", avaliam aliados ouvidos pelo Diario.

Além de Lavareda, não estão na campanha de Jarbas dois outros auxiliares dele que compunham o que durante o seu governo (1999-2006) a imprensa tratava como "núcleo duro": Lúcia Pontes, que era secretária do Gabinete Civil e braço direito do governador, e o secretário de Articulação Política e tesoureiro das campanhas, o hoje deputado federal Edgar Moury Fernandes(PMDB). Um quarto aliado, amigo de Jarbas desde 1966, Carlos Eduardo Cadoca, distanciou-se dele antes, em 2007. Um outro nome está sendo incorporado à lista agora: o do senador Sérgio Guerra (PSDB).

O esvaziamento dessa antiga cúpula diz muito do isolamento que Jarbas está enfrentando. Mais até do que a dissidência de prefeitos e a ausência de candidatos na campanha dele - neste caso a relação é apenas eleitoral, enquanto que o relacionamento com aqueles ex-aliados era também e sobretudo pessoal. Seria justificado por interesses pessoais, conveniência ou pragmatismo, a força da conjuntura que o levou à planície política (o avanço de Lula e do PT) e a postura adotada pelo próprio ex-governador em momentos adversos. "O temperamento e a teimosia de Jarbas contribuíram para o quadro atual", afirmam em reserva alguns integrantes do palanque jarbista.

Os motivos do distanciamento dos antigos amigos são vários. Mas o assunto é tratado com desconforto por eles. "Não gostaria de fazer nenhuma declaração em relação a Jarbas, nem de ordem política nem pessoal", afirmou Edgar, que concorre à reeleição com apoio de Eduardo. "Não tenho interesse em falar sobre a vida pessoal ou eleitoral do senador", disse Cadoca, sem mencionar o nome "Jarbas". Diretora de um grupo privado, Lúcia Pontes afirmou que se comprometeu com a empresa onde trabalha a não se envolver com política.

"Como nunca fiz parte dele (do 'núcleo duro') não saberia explicar o que aconteceu para esse esvaziamento", afirma Sérgio Guerra. Ao Diario, há uma semana, o senador reconheceu que o estremecimento dele com Jarbas tinha "10% de verdade". Guerra foi eleito quando Jarbas conquistou o segundo mandato, em 2002. Este ano, desistiu de tentar a reeleição. Será candidato a federal e tem sido acusado de liberar prefeitos para votarem em Eduardo Campos. "Candidatos de oposição, em especial no Nordeste, são solitários", disse ele, antes de citar outro eventual fator para o isolamento: "O PMDB ficou muito pequeno". Aqui, o PMDB é Jarbas.

Mudou Jarbas ou mudaram seus amigos? O que fez um ex-prefeito do Recife de duas administrações, ex-governador de oito anos de mandato perder o apoio de aliados históricos, amigos e colaboradores e reduziu seu grupo a tão poucos? Hoje, dos escudeiros de primeira linha ou históricos, estão ao lado de Jarbas apenas o deputado federal Raul Henry (PMDB) e os ex-secretários José Arlindo Soares e Cláudio Marinho.

O Diario procurou Jarbas para ouvir a versão dele, mas a assessoria informou que ele não comentaria o afastamento dos companheiros. Raul Henry avaliou: "É normal que, após oito anos, cada um cuide da sua vida". Uma dezena de políticos ouvidos pelo Diario enumeram as razões coletivas e individuais do progressivo afastamento.

Do Diário de Pernambuco -07/08/10

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